Amigos, o densímetro e o refratômetro são duas das mais importantes ferramentas para o cervejeiro caseiro. Com elas podemos medir a densidade do mosto e da cerveja obtendo dados relevantes como a OG, FG, ABV, eficiência e etc…

No artigo de hoje vamos primeiros fazer uma introdução às escalas de medida, explicar as vantagens e desvantagens do densímetro e do refratômetro e finalmente chegar num veredicto sobre qual dos dois é o melhor instrumento de medição!

I- INTRODUÇÃO

É importante saber fazer cerveja, mas é igualmente importante saber regular e utilizar adequadamente os instrumentos que nos ajudam a fazer cerveja.

Todo cervejeiro caseiro deve saber como e quando medir a densidade do mosto/cerveja que nada mais é que o peso de açúcares, dextrinas, proteínas e outros materiais solubilizados.

Essa medição é ainda mais importante quando realizada imediante antes do começo da fermentação quando recebe o apelido de “OG” ou simplesmente Original Gravity enquanto após o término da fermentação temos a FG ou Final Gravity.

De posse de ambas, FG e OG, podemos calcular com razoável precisão o teor alcoólico da cerveja e a atenuação aparente que obtivemos durante a fermentação.

Um cervejeiro caseiro que não faz medições de densidade…

  • Não sabe o teor alcoólico de sua cerveja
  • Não sabe a eficiência de sua brassagem
  • Não sabe identificar problemas de atenuação da levedura
  • Não sabe como transcorreu sua fermentação
  • Pode interromper por engano sua fermentação antes da hora causando sérios problemas (desde off-flavors até garrafas explosivas)

Basicamente fazer cerveja sem medições de densidade é o mesmo que guiar um navio sem bússola ou mapa; a possibilidade de não conseguir chegar onde queremos é bem grande!

II- UNIDADES DE MEDIDA

SG – Densidade Específica:

SG significa Specific Gravity, é a medida da densidade (peso por volume) de determinada solução em relação a água (cuja SG é 1,000).

Essa indubitavelmente é medida mais utilizada pelos cervejeiros caseiros e é obtida por intermédio de um densímetro de massa (lá fora chamado de “hydrometer”).

Importante lembrarmos que o densímetro de massa que utilizamos normalmente está calibrado para 20°C e com escala de 1.000 à 1.100.

CURIOSIDADE: UNIDADE BELGA

Já viram aqueles números que acompanham as cervejas belgas? É uma medida que identifica a sua OG aproximada segunda a medida de densidade específica ao diminuiu “1” e em seguida multiplicar por “100”.Ou seja, Westvleteren 12 teria OG de ~1.120, Rochefort 8 uma OG de 1.080 e assim por diante!

GRAUS PLATO, BAILLING E BRIX:

Todas as 3 são unidades que medem a quantidade de grama de açúcares solubilizados em 100 gramas de solução. Dessa forma podemos dizer que 1°Bailling, 1°Plato e 1°Brix significa que em 100 gramas de determinada solução temos 1 grama de açúcar.

Em 1843 um cara chamado karl Bailling criou a escala °Bailling. Infelizmente sua tabela apresentava incorreções e por isso acabou corrigida pelo químico alemão Fritz Plato e por um outro cientista (também alemão) chamado Adolf Brix.

  • PLATO: Mais utilizada pela indústria cervejeira.
  • BRIX: Mais utilizada pela indústria de produção de vinhos, sucos e xaropes doces
  • BAILLING: Sensivelmente menos precisa que suas primas, caiu em desuso.

Segue uma tabela rápida de conversão entre PLATO/BRIX/ SG reparem que não inclui a escala BAILLING que não é mais utilizada e que existe uma pequena diferença entre Brix e Plato.

SG para plato e brix

Vale ressaltar que a fórmula de conversão entre essas unidades é bem complexa, mas uma aproximação tosca que podemos utilizar de cabeça seria algo como de 1 PLATO = 1 BRIX = 4 SG. Ou seja, 10 PLATO = 1.040 SG … 12 BRIX = 1.048 SG.

II- DENSÍMETRO:

O densímetro possui uma utilização bem simples (ainda que demorada). Bastam alguns cuidados na hora de calibrar e de utiliza-lo para obter medições bastante confiáveis.

CALIBRAÇÃO:

Faça uma dupla calibração do seu densímetro para não haver dúvidas quanto à sua precisão.

Primeiro meça a densidade de uma amostra de água. Deve constar 1.000

Depois utilize sua balança de precisão para medir 176 gramas de água e 24 gramas de açúcar. Uma solução de água e açúcar nessa concentração deve ter a densidade exata de 1.048.

A escala utilizada pelo densímetro quase sempre é a SG. Para fazer a medição devemos seguir 3 simples passos:

UTILIZAÇÃO

1° PASSO:

Comece separando uma proveta (tamanho padrão 250ml),  um densímetro e um termômetro. Adicione então uma quantidade suficiente de cerveja ou mosto na proveta e coloque-a em uma superfície plana se não tiver pressa tente resfriar a amostra para perto de 20°C.

densimetro proveta

Separe seus instrumentos com cuidado. O densímetro quebra com extrema facilidade.

2° PASSO:

Com a amostra já resfriada é hora de finalmente inserir o densímetro! A dica é gira-lo de forma que ele não fique encostado na parede e flutue livremente sem atrito.

DENSIMETRO

Gire o densímetro para que ele flutue livremente sem encostar na borda da proveta.

3° PASSO:

Finalmente faça a leitura observando o ponto exato do nível do mosto ou da cerveja. Se tiver um termômetro fino pode coloca-lo para medir a temperatura exata e fazer as correções necessárias. Caso contrário retire o densímetro e meça a temperatura logo em seguida fazendo a conversão para a SG usando uma tabela! Fique tranquilo quanto a material não solubilizado (como cascas) no líquido, eles não interferem na densidade.

leitura densimetro

Aproxime seus olhos da mesma altura da proveta e faça a leitura desconsiderando eventuais bolhas ou qualquer material em suspensão.

IMPORTANTE: Sempre devemos usar uma tabela para achar o valor correto da densidade já que a temperatura do mosto/cerveja afeta drasticamente o valor obtido.

tabela de correção densimetro temperatura

Tabela de correção para densímetros. Valores abaixo de 20°C devem ser corrigidos negativamente!


MINI-DENSÍMETRO e DENSÍMETRO 1.000 – 1.200

Esses densímetros oferecem medições menos precisas. Como trata-se de uma escala visual, o fato dela ser menor significa menor precisão na hora da leitura.

MINI-DENSÍMETRO: É um excelente medidor de densidade FINAL (FG). Ele apresenta uma leitura mais fácil e rápida e desperdiça menos cerveja que um densímetro convencional. Um adendo, por ser menor sua leitura é mais IMPRECISA! Se decidir adquirir um sugiro o que tiver escalas menores (modelo 1.000 à 1.060 é melhor que o modelo 1.000 à 1.100 por exemplo).

DENSÍMETRO 1.000 – 1.200: Indicado APENAS para medições de cervejas high gravity cuja OG ultrapasse 1.100. Importante lembrar que, pelo mesmo motivo acima, sua leitura é menos precisa.

III- REFRATÔMETRO

Normalmente utiliza a escala brix. Alguns, no entanto, apresentam leituras em plato ou escala dupla (nesse caso ignore o valor em SG afinal a conversão não é linear e essa medição não é precisa).

Fazer a leitura de um refratômetro é bem rápida, difícil é saber se estamos de fato obtendo um valor correto já que ele é menos preciso que o densímetro.

CALIBRAÇÃO

Existem 2 formas de se calibrar um refratômetro, uma mais simples e menos precisa e outra mais complexa que irá te fornecer um “fator de correção” que por sua vez irá ser utilizado para obtermos medições mais precisas.

CALIBRAÇÃO SIMPLES

Antes de usar seu refratômetro pela primeira vez ele deve ser calibrado. O primeiro passo é colocar uma gota de água (preferencialmente destilada) e ajustar até ter uma medição exata no zero como na imagem abaixo.

refratometro 0

CALIBRAÇÃO COMPLETA

A maior parte das pessoas se contenta em calibrar seu refratômetro da maneira simples, mas em verdade esse é um instrumento que foi feito para medir unicamente sacarose em água. Infelizmente o mosto cervejeiro não é tão simples já que inclui diversos tipos de açúcares (principalmente maltoses).

Dessa maneira a leitura não é tão precisa como esperamos e por isso temos que achar o valor de correção do nosso refratômetro. Para achar esse valor de correção siga os seguintes procedimentos:

1- Calibre seu refratômetro da maneira simples usando água destilada

2- Arrume uma amostra de mosto de alta densidade. Ou melhor ainda faça a sua usando DME. Misturar 56,7 gramas de DME e 250 mL de água. Espere uns 15 minutos para a solubilização do DME ser completa (deve ficar um líquido amarelado). Essa solução deve ter aproximadamente 20°P

3- Pegue o seu refratômetro e faça uma medição desse mosto. Anote o valor obtido

4- Meça o mosto com um densímetro já calibrado e de perfeita confiança. Faça a conversão dessa medição para a escala do refratômetro (SG para PLATO por exemplo) usando a tabela acima ou usando um software cervejeiro como o beersmith ou brewer friend. Essa é a medida de densidade real do mosto e deve ser próxima de 20°P se vc mediu as quantidades do item 2 corretamente.

5- Pegue esses dois valores e ache o fator de correção do seu refratômetro usando a seguinte fórmula: Medição Real (referente ao item 6) = Medição do seu refratômetro x fator de correção.

Ex: supondo que eu tenha obtido 20°P no item 4 e 19,2°P no item 3 a fórmula ficaria assim: 20= 19,2 * fator de correção … Logo o fato de correção do meu refratômetro seria 1,041.

Isso significa que de agora em diante eu devo multiplicar por 1,041 toda e qualquer leitura de refratômetro que eu tenha obtido para achar o seu valor real! (normalmente o valor de correção fica em torno disso mesmo).

UTILIZAÇÃO

Utilizar o refratômetro em tese é mais simples que o densímetro, vejamos:

1° PASSO:

Pegue um amostra de mosto e resfrie, como estamos diante de uma quantidade mínima é provável que ela resfrie bem rapidamente então isso não deve ser um problema. Pode, por exemplo, encher uma colher de sopa com mosto e soprar como se estivesse tentando resfriar uma sopa quente. Não precisa precisão absoluta apenas tentar descer um pouco a temperatura para aumentar a precisão (OBS: alguns refratômetros possuem ATC – automatic temperature correction).

Finalmente pipete (ou simplesmente coloque) uma gota de mosto no prisma do refratômetro que deve estar limpo e seco.

refratometro amostra

2° PASSO:

Verifique se não existem bolhas no prisma do refratômetro. Se tudo estiver certo aproxime seus olhos do visor e aponte o refratômetro para uma fonte de luz.

 leitura refratometro3° PASSO:

Sinceramente existem vários depoimentos de pessoas que obtiveram medições diferentes do mesmo mosto, então o terceiro passo é repetir o primeiro e o segundo passo outras vezes para confirmar o resultado! Não se esqueça de computar o seu fator de correção!

OBS: CALCULANDO FG

Calcular a FG com o refratômetro uma verdadeira M…. Para começar a medição não é fácil de ser visualizada pois leveduras em suspensão dificulta a leitura que fica “enevoada”.

Além disso, a medição nesse momento não é a definitiva, ela deve ser submetida à uma tabela de correção para compensar a distorção que álcool acaba gerando na leitura de mostos fermentados ou fermentando!

TABELA COMPARATIVA

TABELA DENSÍMETRO X REFRATÔMETRO

PRECISÃO:

Na minha experiência o densímetro sempre apresentou medições mais confiáveis. Ademais, ele é utilizado na própria calibração do refratômetro. Dessa forma o resultado não podia ser outro. Uma curiosidade; ontem conversando com um amigo que lançou recentemente uma nova cerveja fiquei sabendo que ele também se surpreendeu com a falta de precisão de seu refratômetro. Na cervejaria ele disse que mediu uma FG de 1.010 enquanto a amostra laboratorial testada apresentou resultado uma densidade de 1.005, uma diferença bastante relevante.

VENCEDOR: DENSÍMETRO

PREÇO:

Em uma rápida pesquisa de preço verifiquei que o valor somado de um densímetro e de uma proveta de 250ml é inferior ao do refratômetro, seja comprando em lojas nacionais, seja comprando em lojas estrangeiras.

VENCEDOR: DENSÍMETRO

CERVEJA PERDIDA:

Nesse ponto não tem como discutir, o refratômetro consome apenas uma gotinha e é uma excelente escolha para quem não quer perder cerveja de bobeira fazendo medições de densidade durante a fermentação. Mesmo mini-densímetros resultam em alguma perda de cerveja (ainda que pequena).

VENCEDOR: REFRATÔMETRO

FACILIDADE DE UTILIZAÇÃO:

Outro ponto para o refratômetro, simplesmente não fica mais fácil pingar uma gotinha no prisma e olhar para a luz. Realmente a facilidade e velocidade de utilização do refratômetro torna acompanhar a evolução da brassagem muito mais simples.

VENCEDOR: REFRATÔMETRO

FACILIDADE DE CALIBRAÇÃO:

Ponto fácil para o densímetro! Para começar ele normalmente já está na escala correta mais utilizada (SG), mas além disso ele também possui uma calibração mais simples do que o refratômetro aonde precisamos desvendar um “fator de correção” para obter uma medição mais fidedigna!

VENCEDOR: DENSÍMETRO

RESULTADO: DENSÍMETRO VENCEDOR

Ainda que o densímetro seja o campeão devo admitir que gosto de usar ambos os instrumentos!

Durante a brassagem acho excelente a agilidade e rapidez do refratômetro enquanto para as medições mais importantes (OG e FG) prefiro utilizar o densímetro.

E você, prefere o densímetro ou o refratômetro?

 

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